quinta-feira, 10 de março de 2011

Retiro na cidaqde - 2

Imagem retirada da net
A Palavra de Deus

«Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce, sem ele saber como.»
Evangelho segundo São Marcos 4, 27
Deixa o teu quintal
É bem bonito o meu jardim cultivado pelos meus cuidados. Nem uma erva daninha, nada que me passe despercebido. Estou orgulhoso dele…mas já estou aborrecido. Claro que me felicitam pelas minhas rosas bem podadas e a minha relva tão verde. Se eles soubessem o que ele esconde!De tanto falar de flores e relva, não dizemos realmente mais nada. Eu poderia ficar a vida inteira no meu jardim, na frente da minha casa, de sorriso estampado nos lábios, deixar que vejam em mim apenas uma fachada. Eu poderia viver o resto da vida podando as mesmas sebes, regando as mesmas plantas, cultivando a vida num vaso. Por um instante, eu pensaria que sou eu que faz crescer tudo aquilo. Eu poderia ficar alí especado, à espera do Convidado de honra para quem eu plantei aquele cenário.
Mas, por mais que eu espere por esse final feliz, eu não vejo nada acontecer, é preciso que eu acorde. Hoje eu deixo as minhas plantas no terreno, a chuva fará sozinha o seu trabalho. Eu parto, pois tudo isto crescerá sem mim. Tanto pior se o meu jardim ficar um pouco selvagem. Tanto pior se alguém se inquietar: «estás bem mudado!» Abandono o jardim, entro em casa. Vou dar uma volta por aí, nunca se sabe: e se Aquele que eu espero já entrou, sem passar pelo jardim? Está decidido, parto para uma viagem, à Sua procura, dentro de casa.
Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/spip.php?sommaire&date=2011-03-10

quarta-feira, 9 de março de 2011

Retiro na cidade - 1


Foto de Luis Lobo Henriques


A Palavra de Deus

«6Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te.» (Mateus, 6,6)

Limpeza de primavera

Em breve será Primavera, será necessário enclausurar-me? O sol finalmente brilha, irei esconder-me? Aferrolhar-me em casa, quando tudo me convida a sair, aqui está uma forma estranha de começar a Quaresma. Eu que queria finalmente fugir das coisas empilhadas e atamancadas no fundo da casa, debaixo da cama, em cima da secretária: os livros que nunca li, as peúgas desirmanados, a louça desarrumada. Um monte de coisas que não estão em ordem, que esperam para mais tarde e gostaríamos de esquecer. No fundo do nosso coração também existem muitas coisas empilhadas: querelas que nos afastam, perdões à espera, feridas mal saradas. Nem sempre gostamos de nos retirar para esses cantos das nossas vidas, preferimos ignorar esses lugares escondidos dentro de nós, escondidos atrás de portas fechadas com duas voltas da chave.

No entanto é para lá que o Senhor nos pede que vamos hoje: para os recantos escondidos da minha vida. «Retira-te para o fundo da tua casa». Não fiques aí, ao sol, franqueia uma a uma as portas, primeiro as mais fáceis de abrir. Encontra os lugares onde é bom permanecer: as salas familiares, acolhedoras. Aquelas que são apreciadas pelos teus amigos, a tua família, onde brilham as tuas qualidades.

Depois continua, e entra noutros quartos, mais íntimos: os sentimentos que não partilhas senão com poucas pessoas, os segredos, as fraquezas. E ao fundo, bem ao fundo chega junto daquela porta fechada. Abri-la parece-te talvez imprudente. Tudo o que por trás está tão mal arrumado não corre o risco de me cair em cima, de me ferir, me sujar?

Sabe, no entanto, que o mais belo dos reencontros te espera para além daquela porta. Porque Cristo se escondeu lá. Ele desertou do jardim ensolarado, do lugar acolhedor, do apartamento modelo. Ele adiantou-se a ti, para o quarto recôndito.

Abro? Mas de que tenho medo? Quando os discípulos, por medo, fecharam-se num quarto hermético depois da ressurreição, o Senhor não hesitou em vir para o meio deles. As suas vidas estavam cheias de sombras e de dúvidas, e é para esse quarto obscuro que Cristo veio trazer a luz da Sua ressurreição: «Confiai, sou eu!». Se isto resultou com eles porque não há-de resultar comigo? Deus não viria, não entraria, no que há de mais fechado em mim? Irei eu correr para longe do local onde ele me espera?

Além disso, é exactamente aqui que ele me irá ser útil. A arrumação, eu já a fiz vinte vezes na sala. Na frente da casa, o alpendre está impecável. Salvei as aparências, da fachada nada há a dizer. Mas este tempo de quaresma nada tem a ver com a renovação da fachada ou com a decoração do interior. Convida-nos mais a arejar até ao mais recôndito da casa, a deixarmo-nos tomar o fôlego do sopro vivo desses primeiros dias ensolarados.

Aqui já não sou eu quem O acolhe, é Ele que me acolhe. Esse quarto escondido no fundo de mim, ele conhece-o muito melhor do que eu. É ele, o quarto, que lhe interessa, pois é lá que ele tem mais trabalho a fazer. Pôr em ordem, consertar, escolher: uma verdadeira limpeza de Primavera.

É a altura exacta de nos virmos juntar a Cristo no quarto dos fundos, para lhe dar uma mão. Sem dúvida, com ele, o trabalho irá correr bem. Ele é que fará o trabalho, a nós basta-nos apenas rezar-lhe e segui-lo

Quem sabe? Com ele, talvez ousarei agarrar-me a essa série de nós complicados que paralisam certas relações? Com a Sua ajuda, talvez me aconteça meter o dedo nalguma ferida, para lhe pedir que as cure? Com a Sua força, talvez concerte dois ou três móveis, velharias encafuadas em mim, velhos talentos esquecidos escondidos nalguma roupa. Com a Sua doçura, eu reencontrarei algo de novo enterrado na poeira, para o fazer brilhar lá fora, no grande dia da minha vida.

Retirar-nos para os fundos, por momentos. Para nos escondermos uns tempos, no fresco de uma sombra e falar sem receio com Aquele com quem na sala, ou no jardim eu ousaria apenas cruzar-me.

Esse quarto será o nosso segredo durante toda a Quaresma. Desta porta, apenas nós, Ele e eu, temos a chave. Ninguém saberá o que tramamos em segredo, dia após dia nos fundos da minha casa. Apenas um ruído, em surdina: móveis que deslocamos, coisas que consertamos, um estaleiro enfurnado dentro de mim. Qualquer coisa como uma ressurreição, que sobe do mais fundo de mim mesmo, para fazer dos meus túmulos o mais belo jardim de Páscoa.

Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Bispo de Limoeiro do Norte (CE), dom Manuel Edmilson da Cruz recusa come...




Sinto-me orgulhosa desta Igreja!!

sábado, 11 de dezembro de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

As sete pausas


Jesus, O Cristo, dádiva suprema do Pai a todos os Seus filhos, muitas vezes se afastou, se recolheu, para intimamente orar, conversar como Pai. De tal forma o fez que os Discípulos um dia lhe pediram: "Mestre, ensina-nos a rezar". Jesus com palavras simples falou-lhes do que seria chamado de Pai nosso. Para rezar não são precisas nem palavras difíceis, nem fórmulas complexas, apenas um coração que se abre a Deus, uma alma que se desnuda diante do Pai que nos acolhe e ama incondicionalmente. Orar pode ser pedir (batei e abri-se-vos-á, pedi e ser-vos-á dado), mostrar gratidão pelo que acontece na nossa vida, acção de graças, ou apenas ao olhar a natureza que nos rodeia e traz escondida a mão generosa de Deus sentirmos a paz que se sente diante das coisas belas.
Tolentino Mendonça, o autor dos textos das sete pausas é um poeta da beleza das coisas, da beleza do amor, da beleza de Deus
Abraço fraterno

sábado, 12 de junho de 2010

Armani


A foto é da minha autoria e os pés que calçam estes sapatos são de Tolentino Mendonça (Feira do Livro do Porto)

Há alguns anos disseram-me que certo monge meu conhecido calça Armani, fiquei confusa pensando nas sandálias do tal Pescador, no voto de pobreza e pensei que de facto a árvore não pode fazer a floresta, pois se fizesse nada faria sentido. Hoje li este poema. Quem o escreveu, Tolentino Mendonça, não calça Armani. A floresta que me acolhe calça sandálias, sapatos vulgares, coçados. Assim, sim, tudo faz sentido.


O SILÊNCIO
Regressamos a uma terra misteriosa
trazemos uma ferida
e o corpo ferido
imprevistamente nos volta
para margens mais remotas


Giorgio Armani tinha declarado
àquele jornal inglês: «o luxo desagrada-me,
é anti-democrático.
Quero agora homenagear os operários de todo o mundo»
Eu só pensava em São João da Cruz
enquanto ouvia pela enésima vez:
«a moda substituiu o luxo
pela elegância»


João da Cruz fala de coroas,
resplendores, casulas
véus de seda, relicários de ouro e
diamantes


para lá do jogo das nossas defesas
qualquer coisa interior
a intensa solidão das tempestades
os campos alagados,
os sítios sem resposta


o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços


(De A estrada branca)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A visita de Pedro


Imagem retirada da net: http://www.photographersdirect.com/buyers/stockphoto.asp?imageid=1908663

Mergulhada num vale embebido de verde, a aldeia das Furnas, nos Açores, é certamente uma das mais belas do mundo. Com o vulcão acordado dia e noite, anos a fio, águas quentes, frias e mornas, fontes abundantes e humildes, um lago sereníssimo a espelhar os cambiantes do céu, a embriaguês das flores na sua variedade estonteante, tudo num singular enquadramento de montanhas, outros tantos miradouros geradores de silêncio respeitoso e prolongado com olhares pasmados. O vale das Furnas tantas vezes descrito por tantos escritores portugueses e estrangeiros.

Todos os anos, a seguir à Páscoa, acontece uma procissão peculiar. A procissão dos enfermos. O Santís-simo percorre as ruas e visita as casas dos doentes que O não puderam receber. Mas nessa viagem há uma particularidade: um longo tapete das melhores flores e ramagens das Furnas, artisticamente colocadas em “formas” numa harmonia esplendorosa de cores. As pessoas dizem apenas: “É O Senhor que vai passar aqui. Ele merece o melhor”. De todas as festas da terra é a que tem menos ruído e dispersão. E o que se percebe é que aquele monumento de beleza não é um gesto de vaidade mas de amor pelo Senhor que passa.

Pedro, na pessoa do Papa, vem visitar-nos. A notícia anda por aí entre polémicas e afirmações de fé: há quem pense que há flores a mais, excesso de tempo, perda de rentabilidade, gastos excessivos em decorações, peregrinações e encontros que podem ser mais exibição que devoção.

Será para muitos, um alemão, um antigo prefeito, um líder, um chefe de Estado. Mas sabemos quem nos visita. Habituámo-nos, ao longo de milénios, a olhá-lo para além da humanidade, para o que ele significa, transporta e projecta nas nossas comunidades: continuidade apostólica, unidade da fé, elemento congregador da ecclesia, comunidade cristã. E assim como o povo das Furnas diz que por mais ninguém era capaz de estender um tapete de flores, também os católicos em Portugal de 2010 sabem que por mais ninguém fariam uma festa tão solene. É Pedro que nos visita.

António Rego

In Ecclésia http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&id=79362