domingo, 15 de fevereiro de 2009

Abraão, o Hebreu de Daniel de Sá


Abraão, o hebreu


Os Hebreus. “Homens poeirentos”, o que talvez seja o significado irónico da palavra com que eram conhecidos. Caminhavam no pó, surgiam do meio dele, desapareciam entre nuvens de poeira. Nómadas, não tinham morada certa. A sua casa era uma tenda, a sua pátria era o deserto. Como outros povos que ainda não tinham encontrado um pedaço de terra que pudesse ser seu. Onde crescesse erva em abundância e a água jorrasse em permanência. Onde pudessem semear umas lentilhas ou uns grãos de trigo. Homens sem pátria, sem casa e sem Deus. Talvez prestassem culto aos deuses dos altares que encontravam no seu caminho de vagabundos.


Um povo sem deuses seus, sem um ao menos, era um povo incompleto. Como uma família sem pai ou sem mãe. Poderiam fazer um ídolo. Mas com que nome? Com que poderes? Para os proteger de quê e em quê, se de tanto eram necessitados? E seria mais um empecilho a transportar nas longas jornadas. De qualquer modo, saberiam sempre que ele teria sido fabricado pelas suas próprias mãos, que teria sido uma invenção sua. E compreendiam que a imaginação não faz a realidade.


Mas um dia, ou ao longo de vários dias, ou até durante anos sucessivos, por palavras ouvidas ou apenas no íntimo da sua mente, Abraão percebeu que alguém se lhe revelava. Alguém que se dizia o seu Deus e o Deus do seu povo. Um Deus sem imagem física, que nem sequer tinha um nome nem um rosto. Que caminharia com ele e com o seu povo, que estaria sempre com eles.


Os Hebreus foram-se afeiçoando a esse Deus desconhecido. Dele só sabiam que era o seu, e isso lhes bastava. Já eram, agora, uma família completa. Os outros povos talvez continuassem a escarnecer deles, mais ainda do que antes, por estarem convencidos de que tinham um Deus que não precisava de corpo nem de feições.


Deus tivera o cuidado de não dizer muito de Si mesmo. Nem sequer que era o único, que não havia outro fora dele. Porque Abraão, e sobretudo a sua gente, dificilmente acreditariam nisso. Vivendo entre povos que prestavam culto a muitos deuses, ninguém poderia imaginar que afinal nenhum deles fosse verdadeiro, e que o único era aquele que Abraão dizia ter-lhe falado. Um Deus menor, sem dúvida, como menor era o povo que o proclamava seu.


A fé de Abraão foi aumentando. E a sua confiança tornou-se ilimitada quando Deus cumpriu a promessa de Sara, sua mulher, lhe dar um filho apesar da idade já muito avançada. Ela chegara a compadecer-se tanto do marido que até lhe oferecera Agar, sua escrava egípcia, para nela gerar descendência.


Entretanto, Abraão já percorrera um longo caminho. Partindo de Ur, sua terra natal, e tendo passado por Babilónia e Mari, chegara a Haran. E fora aqui, onde, tal como em Ur, se adorava a mesma deusa que habitava a Lua, que começara a receber a revelação divina. Depois seguira para sul, porque Canaã era o seu destino. Terá passado por Karkemish, Alepo e Damasco, fixando-se em Siquém. Mais tarde, em tempo de uma grande fome, procurou refúgio no Egipto, que era o sonho de todos os famintos por causa da abundância de colheitas que cresciam nos aluviões do Nilo.


Quando regressou do Egipto, montou as suas tendas perto dos carvalhos de Mambré, junto ao Hebron. E aí ergueu um altar ao Senhor, como antes fizera num monte a oriente de Betel. Um altar vazio. E já então Melquisedec, sacerdote e rei de Salém, celebrara com pão e vinho uma vitória de Abraão contra os inimigos que tinham feito prisioneiro seu sobrinho Lot. E saudara o patriarca dizendo: “Bendito seja Abraão pelo Deus Altíssimo que criou os Céus e a Terra.”



Abraão terá percebido assim que o seu Deus de algum modo também Se ia revelando à inteligência de outros homens de boa vontade. E isso não lhe terá diminuído o amor ao Senhor, antes lhe haverá aumentado a admiração, talvez mesmo um honesto orgulho, de que o Deus que lhe manifestara a existência e prometera a protecção do seu povo era, afinal, o Senhor de toda a humanidade.


Daniel de Sá


Salmo 62(63)
Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro. *
A minha alma tem sede de Vós.
Por Vós suspiro, *
como terra árida, sequiosa, sem água.

Quero contemplar-Vos no santuário, *
para ver o vosso poder e a vossa glória.
A vossa graça vale mais que a vida: *
por isso os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.

Assim Vos bendirei toda a minha vida *
e em vosso louvor levantarei as mãos.
Serei saciado com saborosos manjares *
e com vozes de júbilo Vos louvarei.

Quando no leito Vos recordo, *
passo a noite a pensar em Vós.
Porque Vos tornastes o meu refúgio, *
exulto à sombra das vossas asas.
Unido a Vós estou, Senhor, *
a vossa mão me serve de amparo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

30 anos entre os seus sem se fazer notar




30 anos entre os seus sem se fazer notar
O que ainda ontem a Igreja celebrava – O Baptismo de Jesus -, é o acontecimento que, nos evangelhos assinala o início da chamada missão pública de Jesus. O que é estranho é que uma missão tão especial, de cariz divino, vinda do céu, tenha sido inaugurada do modo como foi. O pregador João, o Baptista, pregava no deserto, à partida, um lugar próprio para poucos ouvintes e baptizava no rio Jordão aqueles que o procuravam. Por sua vez, Jesus estava há já cerca de trinta anos nos meio dos seus conterrâneos sem que ninguém se tivesse apercebido de ali se encontrar alguém especial, apesar de ter algo parecido com o pregador do deserto. É que, também no caso de Jesus, em lugar de se instalar em Jerusalém, a cidade do seu antepassado David, escolheu uma aldeia desconhecida, numa terra meia pagã, a Galileia. Quem é que iria adivinhar a sua presença do Messias prometido por detrás do filho do carpinteiro? E, como se não bastasse, também Jesus vai colocar-se na fila dos pecadores que se apresentam para serem baptizados por João, sem nada que o distinguisse dos outros. Apresenta-se como um pecador entre pecadores. O inesperado é que, é numa tal circunstância, quando é baptizado por João nas águas de Jordão, que os evangelhos revelam a missão de Jesus, dizendo que, naquele momento, “os céus se abriram e o Espírito desceu sobre Ele fazendo-se ouvir uma voz do céu que dizia: Este é o Meu Filho bem-amado, em que pus o meu enlevo”.Ao que parece, havia uma tradição judaica, segundo a qual, há muito que não havia profetas em Israel. Já Isaías se queixara: “Ah! Se rasgasses os céus e se descesses!” De facto, de Jesus se diz que viu “o céu rasgar-se” no momento do seu Baptismo. Na verdade, estando os céus fechados, estava também interrompida a comunicação entre Deus e os humanos. Mesmo a comunicação entre os próprios humanos se encontrava ferida. Também hoje, apesar da infinita multiplicação de meios de comunicação e na era do “virtual”, nem por isso, é sempre fácil uma verdadeira comunicação entre as pessoas e os povos. O individualismo que ameaça as relações humanas não desapareceu e as incompatibilidades tornam frágeis as relações a todos os níveis, desde a vida em casal, entre pais e filhos, entre grupos e sociedades e até entre nações. É essa incomunicabilidade que o Deus de Jesus não pode suportar. O envio de Seu Filho feito homem entre os homens estabelece relações entre Ele e os humanos. É assim que, Jesus, mesmo sem pecado, torna-se solidário com a condição pecadora da humanidade. Entra no Jordão, como entrará depois, na morte, descendo até aos infernos da condição humana. E é neste homem, Jesus de Nazaré, que se revela a plenitude do amor e a salvação de Deus. É em Jesus que o céu se rasga e se abre, porque nele se restabelece a ligação entre Deus e os humanos, permitindo que uma tal ligação de amor e intercomunicação passe às relações dos humanos entre si. A prová-lo, aí estão os encontros de Jesus com todos os homens e mulheres que se cruzaram no seu caminho. Nunca os rejeita. Acolhe-os e lança-lhes um olhar de infinita benevolência. Põe-nos de pé tornando-os capazes de se voltarem, de novo, uns para os outros, aprendendo a amar-se de verdade. Afinal, trinta anos entre os seus sem se fazer notar, parece que não são inúteis. Dizem-nos que é a partir da proximidade com as profundezas da condição humana e da vida das pessoas que a missão cristã se revela evangelicamente significativa e de verdadeiro alcance salvador.


In Jornal Diário

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Em tempos de crise – seguir “um outro caminho”



Em tempos de crise – seguir “um outro caminho”
Em algumas igrejas cristãs, o Natal é celebrado a 6 de Janeiro, o dia em que há algum tempo atrás, os católicos celebravam o chamado “Dia de Reis”, hoje, correspondente ao Domingo da Epifania, celebrado ontem.Como a palavra indica, trata-se da manifestação de Jesus aos estrangeiros, na altura, designados por “Pagãos” em relação aos Judeus. Pode dizer-se que a visita dos Magos ao presépio de Belém é outro modo exprimir o que o Apóstolo Paulo entendeu como a revelação do segredo de Deus manifestado em Jesus, a saber: “Os gentios recebem a mesma herança que os Judeus, pertencem ao mesmo Corpo e beneficiam da mesma Promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho”. Aqueles personagens vindos do Oriente são como que a personificação dos que, vindo donde quer que venham, se comportam como verdadeiros crentes, pessoas que procuram Deus caminhando ao Seu encontro. Enquanto para eles, o nascimento de Jesus foi motivo de atracção, para outros, como Herodes e os responsáveis religiosos da altura, foi causa de perturbação e de ameaça. Aqueles Magos, que, ao que parece, não eram propriamente “reis”, vão ser assim designados na tradição cristã, talvez por inspiração do Salmo 71, cantado na Liturgia da Epifania. Ali se fala de um Rei que “governará o Vosso povo com justiça e com os Vossos pobres com equidade”, num tempo em que “florescerá a justiça e uma grande paz até ao fim dos tempos”. A particularidade típica de um tal Rei está em que “atenderá o clamor dos pobres, livrará os aflitos sem protector, terá compaixão dos fracos e dos humildes e aos pobres salvará a vida”.O tom que perpassa o referido Salmo quadra bem com o tempo de crise de que tanto se fala. À sua luz, todos se podem interrogar sobre a questão de saber como no meio de todos este clima de crise, de que modo se vai procurar “salvar a vida dos pobres, aflitos ou sem protecção”? Ou será que bastará tomar medidas apenas para proteger os detentores das grandes fortunas, isto é, os poderosos e os mais fortes? Que caminho seguir?Abordando esta problemática, a economista Manuela Silva, última presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, em entrevista ao Público de 14 de Dezembro, referindo que “nem o modelo socialista soviético está no horizonte, nem este capitalismo globalizado e desregulado”, aponta para a procura de outra saída, na sua opinião, a necessidade de “caminhar para um modelo que valorize a componente democrática”. É bem possível que tenha de ser um caminho em que a preocupação por todos se sobreponha à salvação apenas de alguns. Neste sentido a própria opinião pública precisa de ajustar-se. É que, como diz Manuela Silva: “Há uma certa opinião pública que critica facilmente os desvios das prestações destinadas aos mais pobres e que é complacente com grandes e aproveitamentos menos correctos de riqueza por parte dos não-pobres”. Quem sabe se não seria importante os responsáveis das nações, as instituições e até as Igrejas, tal como os Magos quando informados das intenções perversas de Herodes a respeito do Menino de Belém, em vez de se voltarem para trás pelo mesmo caminho, se dispusessem a enveredar por “um outro caminho”?



In Jornal Diário http://www.jornaldiario.com/

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

In the Ghetto


Esta canção deve de ter pouca menos idade do que eu. Sempre me ficou um aperto no coração e lágrimas nos olhos quando a ouvia. É um grito em voz baixa, mas um grito. Quantos Guetos do corpo e da alma criamos à nossa volta, quantas vezes segregamos os que são diferentes nas nossas bitolas humanas. Onde estará a prática do amor de Cristo. Sepúlcros caiados, fariseus é o que todos somos quando com atitudes concretas ou apenas por não tomarmos qualquer atitude empurramos ou deixamos empurrar para guetos e lavamos as mãos e desviamos o olhar... Será que Jesus nasceu mesmo? Será que o deixámos nascer nas nossas vidas? Não é fácil assumir por inteiro que o Novo Testamento foi escrito e que a Velha Lei foi definitivamente substituída pela Lei, a do AMOR.


Jesus, que eu abra a porta do meu coração e nele construa o presépio onde Tu possas nascer, brincar e crescer em sabedoria e graça e eu cresça no AMOR contigo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Feliz Natal Jesus

Há muita solidão por esse mundo fora e gente que terá chorado amargamente ausências de afectos, de pessoas durante este dia. Será que Jesus Nasceu mesmo? Que estes dias, para além da festa, do consumo do supérfulo, de nos terem "roubado" o Presépio e o Menino Jesus e nos terem impingido um gordo barbudo, nos sirvam para nos interrogarmos (nós os Cristãos) se Jesus nasceu, de facto, nas nossas vidas.
De Miguel Torga
NATAL
Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.

Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mês de Maria- O meu



Porque Maria disse sim;
Porque ser Mãe implica haver Pai;
Porque ser Mãe quer dizer ter Filho;
Porque Filho, Pai e Espírito operam maravilhas e por isso à Mãe chamarão Bem-aventurada todas as gerações;
Porque dia 8 é o dia que sempre foi e será para mim o Dia da Mãe (para além dos outros todos em que a minha Mãe que me gerou está e estará presente na minha vida);
Porque é Natal;
Porque O único porquê é Ele
ofereço-vos esta imagem que fiz em Assis

E este poema de José Carlos Ary dos Santos

Avé Maria do Povo


Avé Avé Maria
mulher de um carpinteiro
e mãe do homem novo
Senhor do mundo inteiro.

Avé mulher do povo
Maria camponesa
que trazes sangue novo
ao corpo da tristeza.

Ouve esta nossa voz
nós vos rogamos por nós
por nós que estamos sós
e quase abandonados.

Senhora da má sorte
sem culpa concebida
nós não pedimos a morte
nós só pedimos a vida.

Ouve esta nossa voz
nós rogamos por nós
por nós que estamos sós
e mal-aventurados.

Senhora da ternura
senhora da alegria
teu fruto está maduro.
É quase um novo dia.

Natal Natal

domingo, 16 de novembro de 2008

Onde estão os talentos que te dei?



Hoje é o XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Evangelho é um dos meus favoritos


Evangelho segundo S. Mateus 25,14-30.

«Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: 'Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’ Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: 'Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’ Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: 'Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ O senhor respondeu-lhe: 'Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. ‘»


Muitas vezes temos conhecimento de que é necessário colaborar em diversas tarefas na sociedade em que estamos inseridos, quer nas coisas da Igreja, quer em trabalhos voluntários de apoio aos que precisam. Arranjamos mil e uma desculpa para não sairmos de casa e não colaborarmos seja no que for. A principal desculpa é: eu não sei fazer isso, não sei cantar, não sei falar, não sei ensinar, não sei fazer nada. Não nos lembramos de que nenhum de nós ou quase nenhum somos especialistas, apenas temos boa vontade e se não temos 10 talentos teremos pelo menos um e esse pode ser essencial para alguma tarefa que mais ninguém sabe fazer ou para ajudar a quem já tem alguma experiência. Portanto façamos render esse único que temos ou se temos mais escolhamos aquele que mais falta faz. Não escondamos os nossos talentos, ponhamo-los a render.