quarta-feira, 17 de março de 2010

Retiro na cidade - 29


A Palavra de Deus

« então encolerizado não quis entrar»
Evangelho segundo São Lucas, capítulo 15, versículo 28


Ultrapassar as imagens


Que desmancha-prazeres, este filho mais velho! Incapaz de ler o amor que lhe tem o seu Pai. E para nós quem é ele? Sentimos a ternura de Deus por nós?
A parábola mostra-nos que não é tão fácil e que nós podemos facilmente ser cegos. Deus ama-nos, mas como? Um acto de fé não consiste em sancionar as evidências, senão não seria necessário. Tentemos ir além do domínio da percepção para tocar o mistério. Tentemos cruzar as nossas emoções para encontrar O que se recusa a ser espectacular. Para além das belas liturgias, o coração do mistério é dado num pouco de pão partilhado

Como compreender esta ligação tão estreita entre a discrição da presença de Deus e a realidade desta presença? Admitamos que ficamos perplexos diante deste Deus que é tão discreto. Apenas a oração permite ultrapassarmos este hiato entre o nosso ressentimento e o amor de Deus. Senhor, eu não sei como me amas, mas eu creio que tu o fazes. Deixemos finalmente as mascaras, fujamos dos papeis, das posturas que tomamos ao longo do dia.

O essencial não é ser o mais velho mas sim saber-se amado.


retiro na cidade - meio caminho



Foto de Luís Lobo Henriques tirada do Mil Imagens

A meio caminho

Caros retirantes
Quinta-feira passada, chegámos a metade da Quaresma. Na nossa marcha para a liberdade, eis-nos chegados a meio caminho. Atenção à tentação de fazer o balanço do nosso progresso, que pode ser desencorajante: o nosso entusiasmo inicial talvez tenha enfraquecido; descobrimo-nos menos fortes, menos perfeitos do que pensávamos ser. Descobrimos sobretudo que esta liberdade a que aspiramos não pode serarrancada; podemos apenas acolher daquele que nos diz: »Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.»

Somos perto de 40.000, este ano, a caminhar juntos graças à internet: mais de mil vezes o número de irmãos do nosso convento de Lille! Os intercâmbios do blog permitem tornar visível esta vasta comunidade que formamos.

De entre as novidades deste ano, conheceis talvez já a rubrica «ensina-nos a rezar» (apprends-nos à prier). Cada semana o irmão Antoine propõe-nos algumas pistas concretas para encontrar Deus nas situações mais quotidianas. Descubram a proposta desta semana clicando no logo.

Retiro na cidade - 28



Foto de Ana Loura


A Palavra de Deus
«E, caindo em si…»
Evangelho segundo São Lucas capítulo 15, versículo 17

Enfrentar a vida

O filho quando está longe, faz um profundo caminho interior. Sem dúvida descobre quanto foi imprudente por ter saído de casa paterna, e a imagem do seu Pai aparece-lhe mais clara. É uma operação verdade que o liberta. Precisamos de compreender que são nos riscos da vida, nas nossas imperfeições e na nossa temporalidade que se inscreve o nosso caminho para a salvação, um caminho de verdade.

Não encarar as nossas tropelias desumaniza-nos. Encará-las liberta-nos…

Doravante é a nossa vida com as suas feridas e os seus sofrimentos, as suas injustiças e as suas violências que não são reparadas e curadas, mas guardadas pois são a realidade de homens que souberam permanecer assim. Apenas levaremos o nome de cristãos se continuarmos crentes na vida contra as evidências deprimentes das injustiças e dos sofrimentos íntimos. O homem é capaz da fé, da esperança e do amor, não apesar, mas graça à sua realidade humana. A nossa humanidade, dimensão carnal incluída, merece portanto ser salva tal como é. Não tenhamos medo da carne; não sonhemos ser anjos!

A procura da sua verdade libertar-nos-á mais que os princípios ou os pretensos valores. Tal como este filho pródigo, mergulhemos com coragem nas nossas histórias e então seremos capazes de nos pormos a caminho na direcção dos outros e de Deus.

Traduzido de: www.retraitedanslaville.org

segunda-feira, 15 de março de 2010

Retiro na cidade - 27


Foto retirada de: http://senhordosuco.wordpress.com/2008/08/06/dar-a-luz/


A Palavra de Deus

Ele diz ainda: um homem tinha dois filhos…»
Evangelho Segundo São Lucas capítulo 15, versículo 11

Parir
O que é a misericórdia? Em hebreu a palavra provém de uma raiz que significa útero. Ser misericordioso é voltar a dar à luz, dar a vida, pôr ao mundo. Jesus no evangelho terá múltiplos gestos de misericórdia. Podemos nós fazer o mesmo? O que é importante na nossa sociedade de solidão, de violência e de exclusão, é fazermos gestos que dem à luz um pouco mais de vida. Assim poderemos criar espaços de relações nas nossas sociedades demasiado impiedosas. A nossa sociedade tem falta de fraternidade. Restabeleçamos relação ali onde ela é ameaçada ou corrompida. Para serem viváveis, os lugares de vida têm necessidade de pré-julgamentos favoráveis e de esquecimento das ofensas. Em pouco tempo vibraremos, tremeremos mesmo, como mães pelos seus filhos. Os nossos desertos de solidão requerem ternura, atenção e amor. Todos os dias deste desafio podem ser superados por um sorriso, um gesto, uma palavra. Cabe-nos contribuir para a construção de um mundo realmente solidário. O que é ser cristão senão vibrar com a Misericórdia? «Bem aventurados os misericordiosos pois obterão misericórdia». As nossas entranhas não nos enganam: sabemos perfeitamente fremir pelo nosso próximo. Expandamos os nossos olhares.


Traduzido de: www.retraitedanslaville.org

Retiro na cidade - 26



A Palavra de Deus
«Eu aqui morro de fome»
Evangelho segundo São Lucas, capítulo 15, versículo 17

Ser e ter

Hoje lemos um dos best sellers da literatura evangélica. Conhecido pelo nome de Parábola do Filho pródigo, poderia também chamar-se «parábola do filho mais velho desmancha-prazeres» ou ainda «a fábula do pai incompreendido».

Esta história bem conhecida de um pai com os seus dois filhos infelizes…conhecemo-la muito bem porque de facto esta história é um pouco a nossa. Com efeito é a nossa história e a de Deus. Tudo é dito: os nossos desejos e o seu amor, os nossos medos e a sua presença, as nossas revoltas e a sua paciência, a nossa liberdade e a sua espera, a nossa loucura e a sua incrível misericórdia, a nossa depressão possível e sua distância de todos os abusos de poder…

O Pai é aquele que dá. Ele partilha tudo com os dois filhos. Para cada uma das suas fomes pressentimos que ele tem um alimento, para cada uma das suas feridas, um remédio. As suas mãos não retêm nada. Tudo que ele tem é deles. Ele é um pai pródigo. Ele apenas sabe dar.

O mais velho está instalado no seu papel, na sua responsabilidade de primeiro. Ele tomará a sucessão, a direcção dos negócios. Sem dúvida faz tudo para corresponder, pensa ele, ao que se espera dele. Ele preocupa-se muito com a sua imagem. Não se arrisca. Não transgride. Ele é um conservador sem dúvida muito atento à sua imagem social, familiar e talvez mesmo religiosa. Vemo-lo no fim da história, incapaz de partilhar a felicidade dos seus, amargo e dobrado sobre si mesmo. Ele não suportará o acolhimento que será feito ao seu irmão.•
O mais novo: ele não pode rivalizar; o mais velho pressiona-o demasiado. É ultrapassado. Poderíamos dizer que tem apenas duas escolhas: ou ser submisso ou rebelde. Talvez ele se sinta oprimido por tanta generosidade da parte de seu pai? É possível que ele enfrente um amor que o esgota. Ele depende em tudo de seu pai. Ele sente que não é nada. Ele precisa de provar a sua existência, encontrar a sua própria identidade. O mais velho: sério, submisso, seco, eu lamento-o! O mais novo: revoltado, estroina, sensível, gosto dele! Neste texto existe um paradoxo. Os dois rapazes são infelizes porque são profundamente amados. Esta diferença profunda entre a realidade e o que sentimos, nas relações de amor, é talvez a nossa.

O filho partiu. Ele escolheu apenas arriscar. Ele coloca-se fora do alcance e o pai já nada pode fazer por ele. Ele não o retém – como nunca reteve nada. Ele até dá ao seu filho tudo o que ele exige: uma parte da herança. Eis o rapaz sozinho face a si próprio, longe da sombra paternal. Ele tem o seu bem. Ele tem confiança nas coisas. Isso tranquiliza, as coisas! Ele entra na adolescência; ele instrui-se. Ele decifra a sua humanidade e as suas horas são ricas. Todas as nossas horas de travessuras, de depressões, de rupturas podem ser ricas. Ele sente que existe e que é cinzento. Ele sente o homem que nasce em si mesmo. Passa do ter ao ser. O seu combate é real. Ele enfrenta ainda as suas memórias. Ele lembra-se que mesmo que estivesse num casulo fechado, ele teria o afecto familiar. Ele toma consciência quanto mais certezas tem mais só está. Uma fome instala-se para não lhe dar repouso. Ele existe mas para ninguém. Pode alguém estar tão só? Entrando então em si mesmo, ele abandona a luta e pode fazer projectos. Sim ele perdeu muito mas ele é um homem vivo, que se levanta e que tem um futuro. Por isso ele deverá amaciar-se e reconhecer justamente aquele que o criou e que lhe manifestou a sua ternura. Ele não faz marcha-atrás. Ele começa uma viagem de regresso que aqui será uma conversão. De volta a casa ele não será mais o mesmo. Ele poderá apreciar a paz e a alegria de uma felicidade que ele não soube ver.

A rotura, a errância, a solidão, a perca, o naufrágio, a depressão, são momentos onde é possível humanizarmo-nos por pouco que tentemos ser nós próprios. O caminho do mais novo reitera-nos que todas as nossas horas podem ser ricas. Pelo contrário, a ausência de risco assumida pelo mais velho, que lhe atravessa a existência aparentemente sem se questionar, estreitando o olhar. A peregrinação interior aumentou o desejo do mais novo, e é apesar de tudo tão grande quanto o tamanho dos braços que o pai que irão estreitá-lo.

A nós cabe-nos não deixarmos desertos os caminhos interiores! A nós também um futuro abre-se!


Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/

sexta-feira, 12 de março de 2010

Retiro na cidade - 25

Foto da autoria de Luís lobo Henriques (retirada do www.1000imagens.com)

A Palavra de Deus

2Bendiz, ó minha alma, o SENHOR,
e não esqueças nenhum dos seus benefícios.
Salmo 102 (103)



Cada manhã



Os benefícios de Deus… Sabemos nós reconhecê-los? Sabemos nós cultivar a sua memória? Aqui está uma conversão do olhar, uma conversão do coração, que nos trará à verdadeira felicidade. Os benefícios de Deus…Sinais de que Deus quer a felicidade das criaturas, a felicidade dos seus filhos.

Estamos convencidos de que o Deus de Jesus Cristo é o Deus da felicidade e que a conversão- com as suas exigências- é desde logo abertura à grande felicidade em Deus? Esta conversão de fé, de inteligência muda a representação que nós temos de Deus. Os benefícios de Deus…são tão numerosos! Cada manhã, é um milagre nós vermos o sol erguer-se; por cada um de nós estar vivo, para ler, pensar, dar felicidade aos outros, aprender a amar…

Os benefícios dos nossos amores, e das nossas amizades. Benefícios de tanta beleza que se nos oferece: beleza da criação, da doçura de um olhar que ama, da vida em germe numa criança, cumprindo-se num velho, beleza da solidariedade e da bondade que opera no mundo, beleza dos artesãos de paz. Benefícios secretos a serem descobertos em cada uma das nossas vidas para serem dadas graças.


E sobretudo, o inacreditável benefício do amor de Deus, do dom do Seu Filho tornado homem em Cristo para nos conduzir ao Pai através da Sua morte, da Sua ressurreição, da sua ascensão. Sim, «não esqueças nenhum dos seus benefícios»

Retiro na cidade - 24


A Palavra de Deus

eu preciso de ficar em tua casa

Evangelho segundo São Lucas, capítulo 19, versículo 5


Eu convido-me


Um cobrador de impostos pendurou-se na sua árvore. Ele está ali porque quer ver Jesus. Ele quer muito vê-lo, mas não quer ser visto. Ele esconde-se quer dos seus concidadãos quer de Jesus. Mas ele quer vê-lo. Zaqueu trepa para a sua árvore porque ouviu dizer que esse Jesus acolhia bem os publicanos, as prostitutas e os pecadores. Ele quer ver, ele olha, ele observa de longe, pelo sentimento da sua indignidade mas também para não ser incomodado.

Nós sentimo-nos também pecadores, mas desejamos ver Jesus por curiosidade ou porque pressentimos que Ele é fonte de misericórdia. Mas podemos também olhar Jesus de longe, para não sermos incomodados. Então, é Jesus que eleva o seu olhar para Zaqueu, que o olha e lhe fala: «eu preciso de ficar em tua casa». Jesus não lhe pede que o convide, ele convida-se.
Jesus, pelo olhar que lança a Zaqueu, leva o seu d
esejo da sua realização. O que ele não tinha ousado imaginar, ele o mal amado dos outros e dele próprio, realiza-se: o Senhor quer habitar na sua casa hoje, e não apenas na sua casa mas também no seu coração. Esta palavra, Jesus dirige-a a cada um de nós, mesmo quando nós o olhamos de longe, por medo ou por vergonha. Sabemos bem que acolher Cristo na nossa casa, em nós, compromete o n osso amor e obriga-nos à conversão.

Desçamos da árvore da auto-suficiência e do nosso medo, para acolhermos com alegria, aquele que pode converter o nosso coração.