quinta-feira, 4 de março de 2010

Retiro na cidade - 9


Romaria quaresmal da Diáspora 2010, Ilha de São Miguel. Foto de Ana Loura

A Palavra de Deus


9E, na terra, a ninguém chameis ‘Pai’, porque um só é o vosso ‘Pai’: aquele que está no Céu.
Evangelho segundo São Mateus, cap 23, vers 9




O Pai está nos Céus




Lembremo-nos das primeiras palavras do Pai Nosso de Jaques Prévert: «Pai Nosso que estais nos céus. Ficai aí.» Abusador, talvez, o poeta, mas não tão longe do Reino de Deus, segundo o que disse Jesus: «Não chameis a ninguém de vosso «Pai» sobre a terra...»


Ser tomado pela ideia que de que existe apenas um Pai, é reconhecer Deus como Deus. E para além disso existe o obrigada, Deus!, pais entre nós, pais de família, e aqueles a quem nós respeitosamente dizeremos "meu pai", quando eles não são nossos. Como sair desta confusão? O Evangelho não é contra a lógica. Reconhecer com Jesus que apenas Deus o «Pai», é trazer um certo olhar sobre as nossas paternidades humanas e espirituais. A verdade da nossa condição é podermos dirigir-nos a Deus chamando-o de «Pai nosso». Entre nós, apenas existem portanto, filhos e filhas.

Ser pai, tanto na geração como no espírito, é poder ser testemunha de outro, do meu filho, da minha filha, da minha própria condição de filho. Filho, filho, quer diz não ser escravo mas livre, não vazio de esperança de uma herança de futuro, mas ser herdeiro de uma promessa de vida, não sem Pai, mas amado ao longo dos anos pelo nosso Pai celeste. Todos filhos e filhas, todos filhos de Deus, todos prometidos a vivermos no Seu Reino.

Retiro na cidade - 8


Imagem retirada de:http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=1261

A palavra de Deus

Quando vos levantais para orar, se tiverdes alguma coisa contra alguém, perdoai-lhe primeiro, 25para que o vosso Pai que está no céu vos perdoe também as vossas ofensas. 26Porque, se não perdoardes, também o vosso Pai que está no Céu não perdoará as vossas ofensas.»
Evangelho segundo São Marcos, cap 11, versículo 25-26.




Quando a oração age




A versão do Pai Nosso que propõe o Evangelho segundo São Marcos é mais compacta. Contém uma frase. Mas, surpresa! Esta frase não é «uma a oração». Ela não diz o que deve ser dito na oração, mas ela diz o que fazer, rezando. «se tiverdes alguma coisa contra alguém, perdoai-lhe primeiro»

Perdoa-lhe a dívida que ele tem para contigo. Trata-se de renunciar ao espírito de vingança. O Pai Nosso na versão de Marcos vai ao essencial. Ele sabe que sozinhos diante de Deus, antes que se chegue ao elogio, é a nossa cólera, o ruído dos nossos rancores, que irá fazer-se ouvir. E São Marcos faz deste «perdoa-lhe a sua dívida para contigo» o acesso à plena presença dAquele que é meu Pai mas também o dele, daquele contra quem eu tenho queixas.


Não se enganem, porém, sobre o significado da frase « perdoai-lhe primeiro, para que o vosso Pai que está no céu vos perdoe também as vossas ofensas». Não se trata aqui de um toma-lá-dá-cá, de um negócio. Deus não faz comércio connosco. Ele não negoceia a Sua misericórdia. Trata-se dessa imensa generosidade à qual chamamos «perdão». O perdão de Deus é-nos dado e nós recebêmo-lo, dando-o por nossa vez. A misericórdia do Pai para connosco ,transforma-nos nela, em misericórdia para com nossos irmãos




Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org

Retiro na cidade - 7


imagem retirada daqui: http://iapropiedade.blogspot.com/


A Palavra de Deus


7Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. 8Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.»
Evangelho segundo São Mateus 6, 7 e 8

A nossa oração somos nós


No sentido não religioso do termo, nas múltiplas palavras que tecem a vida social, «orar. (Tradução do termo francês prier que traduzido à letra seria pedir)», é solicitar, implorar, suplicar, convidar, pedir, mandar vir. Resumindo, pelas orações (pedidos), nós dirigimo-nos a alguém para obter dele qualquer coisa.

Não é assim, diz-nos Jesus, que temos de estar no retiro da oração. E ele está feliz porque assim seja! A oração faz-nos amar o silêncio. Encontramos nele o repouso. Nós levamos connosco, certamente, preocupações e inquietações com numerosos rostos. Mas isso Ele sabe-o, vê-o, Aquele que está alí connosco no quarto do nosso coração. A nossa oração, os nossos pedidos, somos nós ! Assim não nos arriscamos a esquecer o que quer que seja ou quem quer que seja nas nossas orações. E ainda mais tranquilizador, Deus ouve o apelo que o nosso ser presente na Sua Presença lhe endereça em silêncio. Ele age por nós e por aqueles que nós levamos connosco à Sua presença, sem tardar. Sem dúvida não como imaginamos, mas quem sabe exactamente o que é correcto e bom ?

Mais à frente em São Mateus, Jesus convida-nos a pedir «coisas boas» (Cap 7, versículo 11) Quais? Mas em São Lucas, Jesus di-lo por palavras que conduzem a oração ao espaço do silêncio: « Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!»

Retiro na cidade - 6


Entrada para o site passo-a-rezar http://www.passo-a-rezar.net/

A Palavra de Deus


6Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te.

Evangelho segundo S. Mateus 6,6




Tu, quando rezares...


Porquê rezar? Estas palavras de introdução ao Pai Nosso na versão de São Mateus não parecem dar qualquer resposta à questão colocada, como se rezar fosse uma evidência. Não se diz porquê rezar, mas como rezar: «Tu, quando rezares, entra no teu quarto».

O mundo em que vivia Jesus era um mundo religioso, diriamos. No nosso mundo secularizado, a oração é uma prática esquisita. O que reza diante de outro arrisca-se de suscitar o espanto de um «o quê, tu rezas?!» Contudo não é certo que o evangelho faça da oração uma evidência social e não responda à questão «porquê rezar?». A oração que Jesus ensina aos seus discípulos não tem enquadramento no espaço público de um mundo religioso, mas o segredo de um quarto. Esta oração quer muito ter um testemunho, mas apenas um único Testemunho

E o preambulo do Pai Nosso, que diz «como rezar?», traz neste «como?» uma resposta ao «porquê rezar?» Escutemos de novo: «tu quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta, o teu Pai, o teu Pai, te dará». Porquê rezar? rezar para ser «tu» com Aquele que te ama no segredo. Rezar para te reencontrares a ti mesmo em verdade diante dAquele que te concede que existas de novo.



Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Retiro na cidade - 5


A Palavra de Deus

Disse-lhe o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se transforme em pão.» Jesus respondeu-lhe: 4«Está escrito: Nem só de pão vive o homem.»

Evangelho segundo São Lucas Cap4, 3-4




O pão do desejo




«Nem só de pão vive o homem». Ele viverá também da palavra que diz «não só de pão...» E para viver hoje dessa palavra, rejeitemos para já uma recordação triste que poderia impedir-nos de a ouvir. A nossa consciência global agora tem o seu inferno no triste espetáculo dos miseráveis da fome. Desde as crises económicas à guerra, da seca aos tremores de terra, vêm assolar os meios de informação com regularidade. Como dizermo-nos sem vergonha, pensando neles, que « nem só de pão viverá o homem»? Mas Jesus não diz: «o homem não vive de pão», ele diz «o homem não vive apenas de pão».
E o homem miserável não está ele próprio à espera, juntamente com o pão, de outra coisa, à espera de palavra, de respeito, de amizade? Que significa dar pão, se for sem amizade? Isso não servirá de nada! E «não só de pão viverá o homem» não é justamente pronunciado por Jesus nas bodas de Canã. Trata-se então de mudar a água em vinho para oferecer o melhor aos convivas. Aquele que diz aqui «não só...» é um homem que tem fome. A sua palavra nasce da falta, ela surge também da recusa daquele a quem o evangelho chama «diabo».

O diabo! Ele espera Jesus no deserto. Se o seu nome nos parece vindo de outros tempos, traduzamo-lo por «a voz das nossas tentações» ou, de forma mais séria, «a reunião das forças de corrupção contra a generosidade, a alegria e a pureza nas nossas vidas.» Costumamos dizer que o diabo se esconde nos detalhes.
Mas o diabo não é um detalhe desta evocação evangélica. Porque se Jesus vai para o deserto, é conduzido pelo Espírito Santo. E o Espírito Santo envia-o para o deserto, para que ele reencontre o diabo, que o vai tentar. Esta página do evangelho coloca assim à luz para nós uma ideia forte da vida com Jesus, a que chamamos o «combate espiritual». O Espírito Santo em nós é quem quer combater. Não combater os outros, mas combater aquela sombra do mal que escurece as nossas vidas, matando-nos a alegria. A tentação não é portanto o contrário do Espírito Santo. O Espírito quer encontrar-se com as tentações e combatê-las. Ele sabe que destes combates ele sairá mais forte. Ele aumentar-se-à em nós.

Jesus é tentado, mas com quais tentações? Nesta pequena passagem do evangelho de Marcos, uma única tentação é apresentada, a tentação do milagre: «Se tu és filho de deus, diz a esta pedra que se transforme em pão.» Ora nós não vemos nunca Jesus no evangelho fazer milagres para si próprio. Ele curou leprosos, faz falar os mudos, multiplica os pães para alimentar uma multidão. A tentação de Jesus, era portanto o ser filho único de Deus, sem irmãos. E se o evangelho nos apresenta esta tentação, é porque ela não pode ser revertida a favor de Jesus. Nós não podemos fazer milagres como Jesus, mas nós podemos viver também para nós próprios, quer dizer sem Deus, ou melhor, o que vem dar no mesmo, com um pequenos deus só nosso, sol propriedade nossa ou propriedade dos nossos. A Bíblia chama a isso ídolo. O diabo faz Jesus ter miragens, como nos faz a nós, a mentira de uma vida sem Deus, sem o desejo dEle.

O homem tem necessidade de pão para viver, mas este pão não poderá jamais preencher o seu maior desejo de vida. Lembremo-nos dos Hebreus no deserto, no Livro dos Números, capítulo 11. Depois da saída do Egípto é-lhes dado, a cada dia, o maná, essa espécie de granizo que recolhiam ao fim da tarde. O maná era ao mesmo tempo um meio de subsistência e o sinal da presença atenta de Deus ao seu lado. Mas eles ficaram enfadados e puseram-se a lamentar as cebolas, os pepinos, o alho, as alfaces, o peixe, que comiam no Egipto! E lá estava o pão do desejo apagado pelo pão da necessidade.

«Nem só de pão vive o homem». Esta palavra é-nos dada para que a vivamos neste tempo de Quaresma. Retirarmo-nos um pouco em solidão no deserto das nossas cidades para aí combatermos as nossas tentações, para vivermos hoje do pão do desejo de Deus, para o reconhecermos como nosso Pai num «nós» fraternal? O evangelho das tentações de Jesus faz-nos entrar assim com ambos os pés com esta oração que os cristãos desde sempre consideraram como a oração por excelência, porque ela foi a oração de Jesus, o Pai Nosso.

Para esta primeira semana de Quaresma, ponhamo-nos à escuta do Pai Nosso.


Traduzido de: www.retraitedanslaville.fr


Foto: Ana Loura

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Retiro na cidade - 4


A palavra de Deus

21Caríssimos, se o coração não nos acusa, então temos plena confiança diante de Deus, 22e recebemos dele tudo o que pedirmos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que lhe é agradável.
Evangelho segundo São João capítulo 3, versículos 21 e 22



Da amargura à luz




"O mais difícil é o começar", diz o provérbio. Faz parte da natureza das coisas que os começos tenham qualquer coisa de uma dificuldade especial, que não têm os compromissos. Se queremos tornar-nos livres, verdadeiros, luminosos, é porque partimos de uma situação em que, de uma forma ou de outra, existe alguma obscuridade, alguma errância, que nos mantêm cativos e que devemos superar.
Se não devemos nunca crer que somos apenas pecado, não devemos nunca também imaginar que não temos nada a reprovar-nos. De entre as verdades muito simples de que partiremos para caminhar, e há-as já bastante doces: o preço inestimável que tenho para Deus, o amor indefectível que Ele me tem; mas existem também algumas que têm o gosto amargo do pecado: se eu lanço, no íntimo, na presença íntima de Deus, um olhar lúcido sobre mim mesmo, encontrarei muito bem, mas também encontrarei muito o mal: o que eu poderia ter feito melhor para responder ao amor de Deus e dos meus irmãos, mas não fiz. Ou ainda: o que posso agora e doravante fazer!
Deus chama-nos, em todos os tempos mas de forma singular no tempo de Quaresma, a «fazer a verdade»: a não pensar que a verdade já está «toda feita», mas acima de tudo ter a coragem, agora, já, de reconhecer as nossas faltas de verdade, afim de a fazermos um dia verdadeiramente.

Tenhamos a certeza de que a Luz estará no fim do caminho!


Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/ dia 20 de Fevereiro 2010

Foto: Ana Loura

Retiro na cidade - 3


A Palava de Deus

“Ninguém vai ao Pai senão por mim”

Evangelho segundo São João, capítulo 14, vesículo 6




Caminhar humildemente


Se redescobrimos o sabor da verdade, o que precisamos de absolutamente fazer, é metermo-nos a procurá-la verdadeiramente: não nos resignarmos a qualquer catástrofe, começar a sermos livres afim de o sermos um dia plenamente, ir sempre de verdade em verdade cada vez mais saborosas..

Temos a inteira garantia de não encalharmos num impasse, porque Aquele mesmo que nos fez decidir a metermo-nos a caminho não cessará de acompanhar-nos de mais perto, até ao fim que é Ele próprio. «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» diz Cristo. Não temos que recear seguir um caminho que nos conduza a parte nenhuma, já que o Caminho já é o destino : a Verdade e a Vida. Nada teremos a temer em aspirar a uma meta a que nenhum caminho leva, já que a própria meta, Deus, se fez caminho para nós.

Esta afirmação paradoxal de Cristo vale por todo o caminho: em todo o caminho que conduz verdadeiramente a qualquer parte, o objectivo não para de guiar aquele que caminha. É que a verdade não é qualquer coisa que se inventa ou se manipula na medida dos nossos desejos: ela é qualquer coisa que se descobre, que não apenas nos empurra, mas que nos guia para ela a cada passo que damos – tanto que ela seja efectivamente a verdade, e não apenas o que desejamos colocar no seu lugar!

Não podemos caminhar senão humildemente: aceitando deixarmo-nos guiar por um caminho. Que esse caminho seja para nós Cristo!.